“Tornou-se óbvio que sem ciência não há futuro” Entrevista com Ronan de Hercé

“Tornou-se óbvio que sem ciência não há futuro” Entrevista com Ronan de Hercé

Ronan de Hercé, o novo Diretor-Geral da Unidade de Negócio de Proteção das Culturas da Syngenta para Portugal e Espanha, revela nesta entrevista ao novo podcast da Syngenta ‘Alimentar com Inovação’, a sua ligação à agricultura e a marcante experiência como capitão do Exército e partilha a sua visão sobre o futuro da agricultura.

Conta com uma vasta carreia profissional. Que relação tinha anteriormente com o setor agrícola?

O campo está-me no sangue, é uma história de família. Quando eu era jovem adorava passar tempo no campo, escutar as conversas da minha família, à hora da refeição, sobre que tipo de agricultura devíamos seguir, sobretudo com a nova política agrícola europeia que estava iminente. Sempre tive muita admiração pelo trabalho dos agricultores, que são os primeiros empreendedores do mundo. Com as suas terras e seu trabalho criam muito valor.

Chamou-me à atenção na sua biografia o facto de ter sido capitão chefe de um batalhão de infantaria na Nova Caledónia. Conte-nos como foi essa experiência.

A Nova Caledónia foi uma das minhas missões no Exército. Era do outro lado do mundo, com soldados de outras culturas, e por isso foi uma experiência muito enriquecedora. No Exército fazemos campanhas, trabalhamos com planos, tínhamos que reagir a situações de incerteza e por vezes perigosas. Todos os dias uso um pouco do que aprendi como capitão.

Depois frequentou um mestrado em Gestão de Empresas numa Faculdade de Economia, em Londres. O que o motivou a fazer esta mudança na sua carreira?

Eu queria descobrir o que podia fazer com o que tinha aprendido no Exército, mas noutro contexto, o dos negócios. A nível pessoal, esse foi o momento para constituir família e é certo que no Exército as ausências eram prolongadas.

Como começou a sua carreira na Syngenta?

Quando eu estava a concluir o meu MBA quis retomar a minha ligação à agricultura e a Syngenta deu-me a oportunidade de começar em África, um continente que eu conhecia muito bem, devido ao tempo que passei no Exército.

No seu percurso na Syngenta começou na área de desenvolvimento de negócio e Marketing para a África e o Médio Oriente e depois como Diretor-geral da Syngenta em Marrocos. Que aprendizagens obteve nessa etapa?

Foi uma experiência muito enriquecedora, deu-me a oportunidade de descobrir outra cultura e de aplicar de uma forma muito concreta o que aprendi no meu MBA e de ajustar o meu tipo de liderança. O mercado de Marrocos é muito interessante, tem muitas culturas agrícolas, muito parecidas às de Espanha, com um nível de modernização muito variável, entre os agricultores que produzem e exportam frutas e hortícolas, no Sul do país, e os agricultores que produzem trigo de sequeiro no Norte há um mundo de diferença. Tivemos que adaptar o nosso modelo de negócio, os produtos e serviços a esta diversidade.

E antes chegar a Espanha ocupou outros cargos na sede da Syngenta em Basileia. O que o motivou a vir liderar a unidade de negócio de proteção das culturas em Espanha e Portugal?

A unidade de negócio ibérica tem um papel essencial, tem vindo a crescer nos últimos anos e tem equipas muito fortes, uma reputação e uma marca muito potentes. Quando me foi oferecida a oportunidade de vir para a Iberia foi irrecusável. Espero estar à altura do desafio.

Depois de três meses à frente do negócio de CP na Syngenta Iberia, quais são as suas primeiras impressões?

Estes três meses passaram muito rápido. Em primeiro lugar quis conhecer bem as equipas em Espanha e Portugal, somos mais de 500 pessoas, e a minha primeira missão foi aproximar-me de todos. A coordenação com as outras áreas de negócio, como a das sementes, é muito importante, tanto com as equipas que trabalham nos escritórios, como no campo ou nos centros de produção, em Porriño e em Carmona, e os centros de I&D, em Múrcia e em Almeria, nos quais acabámos de anunciar um forte investimento, o que demonstra a aposta da Syngenta neste país. Confirmei a ideia que já tinha antes de chegar, é uma equipa com muita experiência, e no caso dos técnicos comerciais como muita proximidade ao campo, à rede de distribuidores e aos agricultores. Devido à experiência de muitos anos, a confiança entre ambos é absoluta.

Como vê o setor em Espanha e na Europa?

Como se pode constatar enfrentamos grandes desafios, os preços, a seca, a falta de ligação entre os cidadãos urbanos e rurais, as alterações climáticas, a nova Política Agrícola Comum, o Pacto Ecológico Europeu. São desafios enormes que inquietam a todos os que fazemos parte do mundo rural, mas que encaro com otimismo, defendendo com muita convicção o importante papel da agricultura na Europa e é aí que podemos fazer a diferença. Nunca como agora o setor teve uma voz tão ativa. A agricultura faz parte da solução e não do problema.

A guerra na Ucrânia está a ter consequências no vosso negócio?

Sim. Em primeiro lugar porque temos trabalhadores na Ucrânia e a sua segurança é uma prioridade para nós. Condenamos esta invasão (da Rússia) e colocámos em marcha diversas iniciativas para levar toda a ajuda que nos for possível à Ucrânia. Sem dúvida, que este conflito também nos afeta a nível do negócio, há uma escalada de preços dos combustíveis, os mercados dos cereais estão muito alterados, a segurança alimentar está comprometida. É difícil prever como evoluirá o conflito, como nos vai afetar e o mais difícil é encontrar formas de enfrentá-lo. A nossa prioridade é ajudar as pessoas da Ucrânia.

Quais são os principais desafios que empresas como a Syngenta Iberia enfrentam?

Além da conjuntura atual, temos que enfrentar um desafio já conhecido – a seca -, embora a situação esteja a melhorar com as últimas chuvas no país.

E quais são os principais objetivos da Syngenta para os próximos anos?

Os últimos anos na Syngenta foram excecionais em todos os sentidos, tanto a conjuntura em que nos movemos como a nossa resposta, e o nosso objetivo para os próximos anos é manter o nosso nível de compromisso, demonstrado nestes dois últimos anos, continuar próximos do agricultor, sendo a sua primeira opção para proteger as suas culturas. A Syngenta anunciou em 2020 um importante investimento para acelerar a sua inovação e lançar no mercado pelo menos 5 novos avanços tecnológicos nos próximos cinco anos que ajudem a impulsionar a sustentabilidade da agricultura. Também estamos a trabalhar no setor dos Biológicos, e em serviços e no digital, três temas fundamentais para fazer amanhã um tipo de agricultura que permitirá ao agricultor um melhor nível de rentabilidade, e ao mesmo tempo, estar mais em linha com as expectativas da Sociedade.

A sustentabilidade é a chave do futuro da produção de alimentos e essa produção começa na agricultura. Que objetivos concertos tem a Syngenta neste âmbito?

Durante o curso da sua longa história a Syngenta sempre se diferenciou no setor por ser uma empresa de ciência e tecnologia inovadora. Atrevo-me a dizer que hoje em dia a nossa imagem é a de uma empresa comprometida com a sustentabilidade, há anos que a sustentabilidade está no nosso ADN das nossas operações. Fomos pioneiros no nosso setor ao lançar um programa de compromissos com a agricultura sustentável, no ano 2013, – o The Good Growth Plan – que continua e tem novos objetivos: mitigar os efeitos das alterações climáticas. Este programa obteve resultados concretos de extensão da biodiversidade, no cuidado com o solo e a água, na formação de boas práticas agrícolas. Operation Pollinator, Livingro™, Cultivando El Suelo, Heliosec são algumas das iniciativas que permitiram alcançar estes resultados. Para nós está muito claro que para ter êxito na mitigação das alterações climáticas temos que alcançar a sustentabilidade através da inovação. Até 2025 propusemo-nos melhorar a biodiversidade e a saúde do solo em três milhões de hectares de terras agrícolas, a cada ano, reduzir em 50% as nossas emissões de carbono e capacitar 8 milhões de agricultores em boas práticas agrícolas.

Outro desafio do setor agrícola é comunicar com a Sociedade, contar aos cidadãos como estamos a trabalhar em fitossanidade, no bem-estar animal, na rastreabilidade e na segurança alimentar, no cuidado e respeito pelo meio ambiente. Poderemos dar-nos ao luxo de deixar que a Sociedade viva tão alheada da realidade da produção de alimentos?

Sem dúvida que a distância entre os cidadãos urbanos e rurais continuar a ser um dos maiores desafios do nosso setor. A agricultura e a pecuária evoluíram imenso, incorporam cada vez mais tecnologia e inovação, no entanto, há a ideia de que antes havia melhores alimentos, o que não é verdade. Nunca a segurança alimentar foi tão garantida como é atualmente, com as inspeções e a rastreabilidade do que comemos. Hoje em dia há mais alimentos de todo o tipo ao nosso alcance, como nunca antes na história da Humanidade e é provavelmente por isso que a esperança média de vida aumentou nas últimas décadas em países como a Espanha, que tem uma das esperanças médias de vida mais elevadas do mundo. E isto tem muito que ver com a tecnologia que os agricultores utilizam nos sues campos, integrando proteção química, melhoramento vegetal, boas práticas. E também porque a Europa é atualmente a região do mundo mais exigente no que respeita à segurança alimentar. Sou otimista, acho que com a pandemia da Covid 19 muitas coisas mudaram. Tornou-se óbvio que sem ciência não há futuro, poucas pessoas duvidam que a investigação e o desenvolvimento de novas e melhores soluções nos garantiram a nossa sustentabilidade em todos os aspetos, incluindo do meio rural.

Entrevista realizada para o novo podcast da Syngenta ‘Alimentar com Inovação’, por Pablo Rodríguez Pinilla e Soledad de Juan, jornalistas responsáveis pelo programa ‘Onda Agrária’ da radio espanhola ‘Onda Cero’.

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