«Produzir mais batatas pode ser uma forma de combater as alterações climáticas»

«Produzir mais batatas pode ser uma forma de combater as alterações climáticas»

A área de batata na Europa poderá ser menor este ano devido às incertezas geradas pela Covid-19, aos preços mais elevados de outras culturas agrícolas e à proibição do antiabrolhante cloroprofame, prevê o analista de mercado e diretor da revista World Potato Markets, Cedric Porter. A futura PAC e o Pacto Ecológico Europeu são uma oportunidade, mas para que a UE continue a ser líder mundial na produção de batata é preciso uma política de incentivos à inovação na proteção das culturas e tecnologia genética.

 

Cedric Porter, diretor da revista World Potato Markets

 

Quais são as tendências atuais no mercado europeu da batata e como estão a influenciar o mercado do Sul da Europa?

O mercado europeu continua a ser dominado pelos impactos da Covid-19. As vendas de batata para consumo doméstico têm sido muito mais elevadas do que antes da pandemia, diversos países reportaram aumentos de 10% das vendas às grandes cadeias de distribuição alimentar em 2020. É provável que esta tendência se mantenha enquanto não forem levantadas as restrições à abertura de restaurantes e escolas.

Em alguns países, como o Reino Unido, o aumento das vendas de batata e produtos à base de batata no retalho compensaram a diminuição das vendas na restauração. No entanto, para outros países como a Bélgica, a Holanda e a França, a diminuição da procura de serviços alimentares a nível mundial refletiu-se uma redução dos preços da batata transformada, embora tenha havido alguma recuperação desde o Natal.

O mercado espanhol foi afetado pelo aumento das importações de batata na campanha atual. Espanha importou 914.443 toneladas em 2020, mais 9% do que no ano anterior, das quais quase 700.000 toneladas com origem em França, um aumento de 16%  face a 2019. Portugal importou 340.000 toneladas de batatas em 2020, menos 3% do que em 2019, mas houve um aumento de 3% no volume importado de França.

Os exportadores do Norte da Europa vão continuar a pressionar o mercado com mais exportações para o Sul da Europa até final da campanha 2020/21.

A retirada do cloroprofame está a mudar a forma como os agricultores produzem batatas.

Qual será o impacto da retirada do cloroprofame-CIPC no armazenamento das batatas? Os países do Sul da Europa conseguirão uma janela de mercado mais ampla ou melhores preços para as suas batatas?

A proibição do antiabrolhante químico CIPC está a ter um enorme impacto nos produtores de batata. Alguns tiveram de construir novas câmaras de armazenamento, enquanto outros investiram dinheiro na descontaminação das câmaras existentes. Muitos confrontam-se com a despesa extra de aplicar produtos alternativos para prevenir o abrolhamento das batatas e passam por um processo de adaptação a estes novos sistemas. Há também aqueles que venderam as batatas mais cedo do que o normal para garantir que não há problemas de qualidade no final da campanha.

É muito cedo para dizer se este ano haverá uma escassez de batatas na Europa devido à proibição do CIPC, mas é possível. Isso poderá criar oportunidades para os produtores portugueses e espanhóis de batatas primor, que poderão suprir o défice de oferta.

A retirada do cloroprofame está a mudar a forma como os agricultores produzem batatas. A par das incertezas geradas pela Covid-19 e dos preços mais elevados de outras culturas, o aumento do custo da produção de batatas pode significar uma redução da área plantada na campanha 2021-2022. A opção por plantar variedades que possam ser armazenadas por períodos de tempo mais longos é óbvia.

Com a saída do Reino Unido da UE quais são as consequências para o comércio de batatas na Europa?

O acordo de última hora do Brexit determinou a isenção de tarifas no comércio de batata e produtos derivados de batata entre a UE e o Reino Unido. Portugal exporta muito poucas batatas para o Reino Unido, ao passo que Espanha exportou mais de 10.000 toneladas para aquele país e importou mais de 50.000 toneladas de batatas britânicas.

Nos termos do acordo, o Reino Unido não pode exportar batata de semente para a UE, porque o seu sistema fitossanitário não está alinhado com o da UE. Em 2020, Portugal importou perto de 500 toneladas de batata semente do Reino Unido, de um total de 34.000 toneladas importadas. O Reino Unido foi o segundo maior fornecedor do mercado espanhol, exportando 10.000 toneladas de batata semente em 2020 para Espanha. No entanto, metade desse total foi para as Ilhas Canárias, para onde o Reino Unido ainda está autorizado a exportar semente.

O Reino Unido está a desenvolver a sua própria política agrícola. Dentro de sete anos, os agricultores britânicos não terão direito a receber apoios diretos à produção, mas poderão candidatar-se a apoios de carácter ambiental numa lógica de “Bens Públicos em Troca de Dinheiro Público”.

As batatas têm uma pegada de carbono e hídrica muito menor do que outros alimentos

O que vai mudar na produção de batata na UE quando o Pacto Ecológico Europeu e a Estratégia “Do Prado ao Prato” entrarem em vigor no âmbito das normas da nova PAC?

Existem desafios e oportunidades para o setor da batata na política agrícola do Pacto Ecológico da UE.  As batatas têm uma pegada de carbono e hídrica muito menor do que outros alimentos, como o arroz e a massa, pelo que produzir mais batatas pode ser uma forma de combater as alterações climáticas. No entanto, são também suscetíveis a infestantes, pragas e doenças e necessitam de uma gama de produtos de proteção das culturas para se desenvolverem no seu pleno potencial. Ao abrigo do regime comunitário de retirada de substâncias ativas e face aos objetivos de aumento da área em modo de produção biológico, poderão existir dificuldades acrescidas na produção de batata.

Para que a UE continue a ser líder mundial na produção de batata terá de desenvolver uma política de incentivos ao desenvolvimento de novos produtos de proteção das culturas e de tecnologia genética, de modo a que os produtores europeus se mantenham competitivos.

A pandemia provou que os consumidores adoram batatas e que os agricultores europeus se destacam na produção da cultura de forma responsável. Os decisores políticos devem assegurar que tal possa continuar, considerado que existe um aumento da procura mundial de batatas.

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