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Abelhas – Novos estudos comprovam que neonicotinóides são inócuos

Escrito por Syngenta

Autor: Jon Entine, Director Executivo do Genetic Literacy Project, é membro do Institute for Food and Agricultural Literacy, da Universidade da California-Davis. Siga-o no Twitter:  @JonEntine

Quando em Junho de 2013 foi noticiada a morte de milhares de abelhas, as parangonas dos jornais apontaram o dedo à indústria de proteção das plantas. A questão foi de imediato politizada por grupos de lobby anti-químicos, que culparam os neonicotinóides pela tragédia da morte das abelhas. Transcrevemos as afirmações do jornal “The Huffington Post” e repomos a verdade:

“A epidemia, conhecida como “colony collapse disorder” (CCD), levou a que os apicultores dos EUA tenham perdido cerca de 1/3 dos seus enxames de abelhas no ano passado”.  (Incorreto: a CCD ocorreu em 2006 e, desde então, as estatísticas oficiais indicam que a mortalidade das abelhas regrediu consideravelmente). “Os investigadores atribuem a epidemia a uma nova classe de inseticidas conhecida como neonicotinóides, similares à nicotina, que alegadamente reduzem a capacidade olfativa das abelhas e, consequentemente, a sua habilidade de procurar alimento”. (Incorreto: os investigadores encontram a causa dos problemas ocorridos na desadequada gestão das colmeias e na varroatose, não estabelecendo qualquer relação entre a mortalidade das abelhas e os neonicotinóides).

Os ativistas levaram a sua campanha contra os neonicotinóides ao extremo, numa ação teatral de encenação dos “funerais” das abelhas. O grupo Mother Nature Network afirmou que se trata de mais um capítulo trágico de morte massiva de abelhas por ação dos neonicotinóides:

“Parece-lhe familiar? No passado mês de Abril, os neonicotinóides foram banidos da UE depois de os investigadores terem concluído que estas substâncias químicas estão correlacionadas com a colony collapse disorder (entretanto, a EPA parece não ter pressa em dar resposta a esta questão)”.

De facto, tal como o Washington Post noticiou no passado mês de Julho num artigo intitulado “Parem com a polémica das abelhas”: “o discurso dos grupos de lobby anti-agricultura convencional é desmentido pelas estatísticas oficiais dos EUA, porque na realidade o uso de neonicotinóides no país coincidiu precisamente com a recuperação do número de colmeias”, afirmava o jornal.

A tentativa de relacionar o incidente de Portland com a CCD foi absurda. De facto, o problema com a CCD ocorreu seis anos antes, em 2006, e esse sim afetou abelhas, enquanto o incidente de Portland incidiu sobre abelhões. A origem deste último foi rapidamente identificada, na realidade os abelhões morreram devido a um erro de uma empresa local de biocidas, que aplicou por engano substâncias químicas de controlo de pragas industriais/domésticas em tílias em fase de floração, que por si só já são venenosas para as abelhas.

Qual a verdade sobre a saúde das abelhas?

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Após anos de propaganda sobre a alegada ameaça à população de abelhas, todos temos bem presente o importante papel desta espécie polinizadora na cadeia alimentar e no ambiente. Elas são de facto importantes.

Muitas abelhas, sobretudo as espécies prolíficas e os abelhões, são criaturas sociais. Vivem em colónias que funcionam como super-organismos dentro das colmeias, onde o Todo é mais importante do que a soma das partes.

Por isso, embora os entomologistas estudem os insetos na perspetiva do indivíduo – e os ambientalistas se inquietem com a morte de insetos individuais -, na realidade a avaliação da saúde das abelhas e o seu impacto na nossa cadeia alimentar  sob a perspetiva da colónia e da proteção das culturas é a mais rigorosa.

Isto tornou-se evidente nas últimas semanas, após a publicação de uma enxurrada de estudos que pretenderam demonstrar, uma vez mais, que os neonicotinóides – produtos fitofarmacêuticos criados para controlar os inimigos das plantas, com baixo perfil de toxicidade para o Homem e os insetos auxiliares – são responsáveis pelos problemas que afetam as abelhas.

Porque foram divulgados tantos estudos simultaneamente? A sua publicação coincidiu com o fim da suspensão temporária dos neonicotinóides na Europa, que entrou em vigor em 2014. A Comissão Europeia estabeleceu o final de 2015 como prazo limite para apresentação de novas provas.

Embora alguns desses estudos sejam da autoria de entidades independentes, a maior parte da investigação foi emanada de laboratórios liderados por cientistas que se assumem claramente e de forma política contra os neonicotinóides. Dois estudos em concreto despertaram o interesse dos media.

O primeiro, liderado por Mikael Henry, investigador do Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola (INRA, entidade francesa equivalente ao INIAV em Portugal), datado de 2012, conclui que a exposição a níveis elevados de neonicotinóides causa desorientação nas abelhas, impedindo-as de regressar à colmeia. Este facto, concluiu o estudo, causa o colapso generalizado das colónias de abelhas. Trata-se de um respeitado cientista, mas a sua postura de forte oposição aos neonicotinóides  é bem conhecida.

Este estudo foi uma das peças fundamentais que esteve na origem da moratória sobre os neonicotinóides  na UE. No entanto, vários estudos publicados nos dois anos seguintes vieram pôr em causa as conclusões de Mikael Henry, que se basearam em trabalho de laboratório, à partida menos fiável do que os estudos de campo. Se por um lado, as abelhas estiveram na boca dos europeus pelas piores razões quando estes estudos foram revelados, a realidade é que a população de abelhas não parou de aumentar.

À primeira vista – e a maioria dos jornalistas não investigou a questão a fundo – as descobertas do investigador do INRA confirmam a sua conclusão inicial. Henry concluiu que a esperança média de vida de cada abelha que se alimenta de culturas tratadas com neonicotinóides é abaixo da média.

A BBC apelidou este estudo de “A peça que faltava no puzzle”, apresentando-o como um meio caminho entre alguns estudos de laboratório, que admitem que os neonicotinóides podem ter efeitos negativos, versus os estudos de campo que desmentem esta versão. O estudo pretendeu demonstrar que individualmente as abelhas que se alimentem em parcelas tratadas com neonicotinóides, e portanto, expostas a doses à escala real, morrem ou desaparecem a um ritmo maior do que o normal.

Os media foram novamente enganados

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A maioria dos jornalistas não percebeu que as conclusões de Mikael Henry se reportavam a “abelhas individuais”. Embora tenham sido encontradas provas dispersas em relação a alguns indivíduos (abelhas), os investigadores não encontraram diferenças significativas entre a saúde das colónias de abelhas expostas e as colónias não expostas a neonicotinóides:

«Comprovámos que existem problemas ao nível dos indivíduos no campo, mas esses problemas foram compensados à escala das colónias», afirmou Henry. «A população dentro da colónia conseguiu compensar a perca de abelhas operárias aumentando a população total de abelhas».

Por outras palavras, a colónia enquanto um todo compensou quaisquer efeitos que possam ter existido ao nível individual – e desta forma, as provas apresentadas por um investigador que é sobejamente conhecido pelas suas posições extremas contra os neonicotinóides, revelam que «não se observaram, nem foi possível quantificar efeitos negativos na saúde da colónia».

Como é óbvio, o próprio investigador realçou da sua investigação apenas os efeitos nas abelhas ao nível individual e não fez questão de sublinhar que o seu novo estudo contraria de forma evidente as previsões do seu estudo anterior. Evidentemente, tal honestidade poria em causa o argumentação que serviu de base à proibição dos neonicotinóides na UE.

Como de costume, os media basearam as suas reportagens apenas no comunicado de imprensa que propagandeou o perigo aleatório para as abelhas enquanto indivíduos, mas na realidade a colónia (colmeia) sobrevivia. Provavelmente os jornalistas nunca chegaram sequer a ler o estudo e também não mencionaram o facto de que o estudo da equipa do investigador francês reforça as conclusões de anteriores estudos de campo em larga escala no Canadá, Reino Unido e Europa.

O “estudo de campo realista” de Dara Staley

Outro estudo conduzido por Dara Stanley, da universidade inglesa Royal Holloway, centra-se no estudo da polinização de macieiras por abelhões. Este visou provar, pela primeira vez, que os abelhões expostos a “doses de campo realistas” de neonicotinóides diminuem a sua atividade polinizadora. Em concreto, pretendeu provar que as colónias de abelhões expostas a neonicotinóides apresentam uma menor taxa de visitação às macieiras; recolhem pólen com menor frequência e demoram mais tempo no voo de busca de alimento do que o grupo de controlo. Alega ainda o estudo que as maçãs polinizadas por abelhões expostos a neonicotinóides contêm menos sementes do que o normal.

Tal como no caso do estudo francês, a equipa de Dara Stanley não elucidou o público – e os media ignoraram tal facto – sobre a imensa contradição entre as conclusões que apresentou publicamente e os factos apurados no estudo. Os números (do estudo) mostram que não há diferenças no vingamento dos frutos, nem no número final de maçãs produzidas, nem sequer na percentagem de árvores que deram frutos, entre macieiras polinizadas por colónias de abelhões expostos a neonicotinóides e por colónias não expostas.

Na realidade são estas as conclusões que interessam aos agricultores. Mas é preciso ir a fundo, aos anexos do estudo, para descobrir estas verdades – e para descobrir que os abelhões são péssimos polinizadores de macieiras: 29-56% das macieiras polinizadas por abelhões não expostos a neonicotinóides, observadas no estudo de Dara Stanley, não obtiveram vingamento de frutos.

Veja-se a ironia da pesquisa de Mikael Henry e de Dara Stanley. Estudos que se basearam em supostos ensaios de campo em que as abelhas foram sujeitas à exposição de neonicotinóides – focados na longevidade e na busca de alimento –acabaram por encontrar poucas ou nenhumas diferenças na saúde das colónias de abelhas, bem como nos efeitos mais significativos que resultam da atividade de polinização.

Estudos contraditórios

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Para dar um contexto científico a estes estudos, citamos três estudos recentes que confirmam e corroboram os resultados de anteriores estudos de campo em larga escala – a exposição das abelhas a neonicotinóides em campo não prejudica a saúde das colmeias -, mas que estiveram fora das páginas dos jornais. Uma equipa liderada pelo investigador Jarmo Ketola, do Instituto dos Recursos Naturais da Finlândia, concluiu num estudo de campo de larga escala, conduzido durante duas campanhas (2013 e 2014), que a exposição das abelhas a plantas provenientes de sementes de colza tratadas com tiametoxam (composto da classe dos neonicotinóides) não gerou quaisquer efeitos adversos nas colónias de abelhas.

A exposição das abelhas a tratamentos com inseticidas da classe dos neonicotinóides teve um efeito temporário nas colmeias, que no entanto recuperaram passadas duas semanas. O estudo, conduzido na Finlândia, sublinhou a preocupação com a acumulação de resíduos de neonicotinóides nas colmeias – em resultado do processo natural de busca de alimento – que se aproximou do limiar plausível de causar danos, recomendando um estudo mais aprofundado da questão. Infelizmente, no entanto, ocorreu uma contaminação cruzada no campo de ensaio, tendo sido detetados neonicotinóides nas parcelas testemunha (não tratadas), que excederam mesmo os níveis detetados nas parcelas tratadas, o que limitou a utilidade do estudo.

Outros dois estudos que demonstraram haver efeitos limitados ou nenhuns efeitos foram ignorados, aparentemente devido à ligação da indústria com esses mesmos estudos. O primeiro, da equipa da Helen Thompson, publicado na Pest Science Management, não encontrou efeitos adversos do tratamento de sementes de colza com tiametoxam nas colónias de abelhas, mesmo com elevados níveis de exposição. A equipa concluiu que «salta à evidência que em condições de campo não existem efeitos adversos resultantes do uso de tiametoxam no tratamento de sementes de colza em cultura de Inverno no desenvolvimento das colmeias, nem na sua atividade de busca de alimento». A Helen Thompson terminara funções na Agência Britânica de Investigação sobre Alimentação e Ambiente (Food and Environment Research Agency) em 2013 e ingressara então na Syngenta, empresa que fabrica alguns inseticidas da classe dos neonicotinóides.

A Bayer encomendou um estudo de campo de larga escala, que será publicado em breve, sobre três espécies de abelhas – abelhas, abelhões e abelhas do género Osmia  – alimentadas em campos de colza cujas sementes foram tratadas com clotianidina (composto da classe dos neonicotinóides). Conduzido pelo Instituto de Apicultura de Oberusel, na Alemanha, em parceria com empresa belga IPM e uma equipa de ecologistas da empresa alemã Tier3 Solutions GmbH, este estudo conclui que «as colmeias de abelhas desenvolveram-se normalmente … os abelhões também não apresentaram quaisquer distúrbios…e as abelhas do género Osmia construíram os seus ninhos sem quaisquer disfunções e preencheram as suas camas de nidificação com ovos fertilizados».

Os jornalistas e outros investigadores desconfiam dos estudos encomendados pela indústria de proteção das plantas. Sempre que os resultados destes estudos destoam das conclusões dominantes na comunidade científica independente, levanta-se a suspeita. No entanto, neste caso, as conclusões dos estudos financiados pela Syngenta e pela Bayer estão em linha com o que foi apurado nos principais estudos de campo de larga escala sobre abelhas e neonicotinóides: parece não haver qualquer perigo identificado para as colónias de abelhas, o corolário da saúde das abelhas.

O que podemos então concluir deste “duelo de estudos” sobre as abelhas?

Analisar a questão sob o prisma da abelha enquanto indivíduo conduz-nos a uma visão desfocada sobre o impacto sub-letal dos pesticidas como os neonicotinóides na saúde das abelhas, porque as abelhas e os abelhões existem como parte de um super-organimso: a colmeia.

Os estudos que encontram potenciais impactos em abelhas individuais confirmam as conclusões dos estudos de campo de que “não há efeitos adversos” ao nível da colónia (colmeia)

Quando somados à “luz da evidência” de anteriores estudos de campo de larga escala sobre abelhas e abelhões que se alimentam de culturas realizadas com sementes tratadas com inseticicas neonicotinóides, os efeitos adversos ao nível da colmeia são mínimos ou nulos.

Apesar de os media e os grupos de pressão anti-indústria de proteção das plantas apontarem os holofotes a um ou outro estudo que foca os efeitos adversos do uso de neonicotinóides, o que importa do ponto de vista da saúde das abelhas é o que se passa no campo e o que pode ser medido do ponto de vista da vitalidade das colónias de abelhas, da produção das culturas e o resultado agronómico.

Os estudos de campo sobre abelhas e neonicotinóides continuam a incomodar muitos cientistas, ONG e jornalistas que alinham por uma narrativa premeditada.

Sobre o autor

Syngenta

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